sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Portas

As portas do armário estão abertas, nada sai.

O vazio sentado ao seu lado aparenta ser maior que você. Estou silêncio.

Você procura na mochila as desculpas que me deve. Acha nada. Sua mochila não é capaz de renunciar por você.

Te tiro os olhos, um mosquito. Sem reparar a fuga, te acho.

Você diz que precisa ir. Onde?

As chaves, onde? Faço aceno com a metade da mão, o vazio te segue. Se vejo o vazio ele também é meu?

Sete passos, apago a luz do quarto olhando as portas abertas.

Amanhã escrevo sobre isso. Amanhã acordo cedo. Amanhã, vou.


domingo, 4 de setembro de 2016

Porta

Deu duas batidas na porta e esperou que alguém abrisse. Respirou fundo, ajeitou a camisa e encarou a porta mais uma vez. Carregava um saco de papel com alças pretas de plástico. Seu olhar era fixo na pequena lente encaixada na madeira à sua frente. Respirava profundamente. Teve medo de todo o ar do corredor ser engolido por suas entranhas, o saco de papel vacilou na sua mão. Deu mais duas batidas e esperou. Sentiu a angústia do não saber. Figurou seu rosto em encenação barata enquanto pensava nas possibilidades da demora. Ouviu passos e um arrepio subiu dos pés à cabeça, ajeitou-se. Ao empurrar os óculos com a ponta do dedo escutou as chaves se agredindo atrás da porta. Concentrou-se para não soar estranho quando falar a primeira frase. Encarou a lente por mais um segundo. “Bom dia”.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

O peso do amargo

É a última quarta-feira do mês. No meu bolso da frente estão algumas notas da máquina de cartões do posto de gasolina, são as provas de que é possível comprar sem ter dinheiro. São as lembranças que meu salário do próximo mês vai chegar e antes de dar "oi" vai fugir. No bolso de trás, um maço de cigarros paraguaios que custaram 2,50. Abro o vidro do carro. É o último dia do mês.

Fazem dois meses me ofereceram um cargo melhor. Fazem dois meses que percebo que o "melhor" é relativo demais.

Abri a janela e acendi um cigarro paraguaio. Já tinha dito que abri a janela, esqueci de dizer o motivo.

No meu carro um músico de meia idade que está em busca do sucesso. Apresento algumas músicas salvas no celular, queria parecer interessante. Ele gosta. Comentou de uma cantora japonesa que a música que mostrei o fez lembrar. Detesto música japonesa. Ele encolhe.

Termino o cigarro e fecho a janela. Lembro que ligar o ar condicionado do carro faz gastar mais gasolina e invento que estou precisando do ar da noite. São 19:15.

Passamos por um acidente de carro que deixou o trânsito lento, ele resolve pegar a gaita na bolsa me fazendo ter que desligar o som do carro. Eu adorava a música que estava tocando.

Ele me mostra que sabe tocar a nona sinfonia na gaita. Admiro. Fico mais animado com o motoboy ao lado tentando escutá-lo tocar do que com a música de fato.

Ele para, eu volto a música. Fazemos um silêncio desconfortável. Um carro de polícia pede passagem.

O desconforto da carona nos faz conversar sobre elogios e críticas. Digo que detesto elogios ao meu trabalho. Que adoro elogios às coisas que não fiz de fato. Explico que meu narcisismo tem limites estranhos. Ele finge entender. Diz que lida bem com as críticas. Concordo sem acreditar.

Outro carro de polícia passa. "Melhor fechar as janelas", ele sugere. Concordo. Lembro do ar condicionado, tarde demais.

Estamos chegando no destino da carona. Digo que na próxima vez ele não precisa se sentir forçado à conversar enquanto dirijo. Ele parece ficar sem graça. Ignoro.

Destravo o carro acendendo outro cigarro paraguaio. Ele se despede. Outro carro de polícia passa.

O "melhor" é relativo demais.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Invisível #1

Meu nome é Lucas.

♪ Tocando agora: J. Tillman - Love No Less Worthy 

Eu tenho 25 anos recém completados. Situação que cria dúvida toda vez que me perguntam a idade. 
Quando eu me acostumar, trocam.

Eu moro no Rio de Janeiro. Cidade Marav... dizem.

Eu tenho uma rata, a Frida. (Frida, fridoca, medrosa, "rata doida vem cá!"). 2 meses. 
Ela ainda não tem idade pra se confundir com números.

Sou formado em Belas Artes, em Informática, em fazer cara de bobo toda vez que vejo que o preço do iogurte abaixou.

Sempre escrevi da vida e sobre ela. Sobre a minha, sobre a dos outros. Tento, quando escrevo, mostrar a beleza da banalidade. Dos dias perfeitos em que derrubamos um copo e fingimos que não o houve. Escrevo sobre os cacos que ninguém quer limpar, sobre os ruídos da cidade, sobre a tv do metrô que quebrou e agora só mostra a tela inicial do sistema operacional.

♪ Tocando agora: Mirel Wagner - Oak Tree

Sobre os dias, pinço o que não vale. Não me espere dizer como foi no trabalho ou como fiquei 2 horas no engarrafamento. Costumo me perder no sapato desamarrado, no riso alheio, no caos das bocas, nos olhos perdidos.

Hoje foi um dia normal, como todos os outros hão de ser. No normal vejo todas as possibilidades vazias de sucesso, mas não o extraordinário.

♪ Tocando agora: Monica Heldal - Boy From The North 

Hoje vi uma mulher brigar com o motorista de ônibus. Passou do ponto. O rosto dela ficou vermelho, sua bolsa não parava no ombro. "Você passou do ponto! Eu te pedi, NÃO, VOCÊ XINGOU PRIMEIRO!". Ele saiu, ela engoliu a raiva, anotou a placa e também foi. Vazio. O rosto, o ônibus, a bolsa, o grito.

Meu nome é Lucas.
Quando eu me acostumar, trocam.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Porta

A sua porta não abre como a de todo mundo. É uma madeira crua feita de resto de árvore.

Na sua epopeia diária, o estado da porta a impede de sair rápido, de batidas ríspidas, de fechar bruta no nariz de alguém. A porta, me indago o motivo diariamente, permanece encoberta com o plástico branco que a protegeu no caminho até aqui. 

Manter o plástico branco translúcido talvez seja segurança de mudança futura e de movimento em alguma direção. Da excentricidade de um objeto comum. Da variação. Ainda não sei.

Ontem no café do trabalho alguém falou que só se aprende diante da mudança de hábitos. Pela solução de problemas. Eu, dono de uma porta saudável e funcional, me readaptaria se na entrada do meu quarto fosse posta a tal tábua ensacada descrita acima. A pessoa do café citou Deleuze, ele queria parecer inteligente. Pareceu.

Desde o aparecimento desta tábua, tornou-se parte da minha rotina admirar os momentos da "porta" fechada e aberta, da leve inclinação necessária para mantê-la de pé, até da luz que vaza lá de dentro quando o quarto está acesso. 

A pessoa dona do quarto e da "porta" precisou readaptar seus hábitos. Aprender que fechar e abrir o quarto não é mais ato simples. Uma ação que agora demanda tempo, atenção, força e uma leve inclinação que deixa a luz passar e a tábua de pé. Precisou também se acostumar com o barulho do vento vacilando no grande plástico que a cobre. Adaptou.

Carregar tal fardo pode ser crucial na solução de problemas diários, desde a andar com um plástico translúcido que tenta acobertar ineficiências e demonstrar mudanças, até a estabelecer a capacidade de construir e desconstruir barreiras entre os olhos e o mundo.

Eu, admirador declarado da porta, numa investigação mais apurada a deixei cair. Fez barulho, mas não quebrou. Não caiu no pé, mas doeu.

Ainda não consigo demonstrar qualquer aprendizado, apenas tenho tido trabalho para colocá-la no lugar,